SER BOTAFOGO
Uma frase muito utilizada pelos
militares e politicos diz que "não
há glória sem luta". Se tiver que adaptá-la
para nós, botafoguenses, diria:"Não há
glória sem sofrimento".Corremos o risco de ficar
mal acostumados com Garricha e Nilton Santos , quando os
resultados vinham sem sofrimento.Mas mesmo eles , como que
atentos observadoresda sina em branco e preto , nos davam
um período para sofrer.Assim foi entre 57 e 61 e
entre 62 e 67. Mas, depois, não precisavam exagerar!
Foram quase duas décadas de sofrimentos sem glória.
As vezes já prontos para digerir, vinha uma mãozinha
boba e derramava o leite da vitória, como em 71.
Por isso,a natural e exagerada
superstição alvinegra. Natural pela lógica
do sofrimento. Exagerado, porque é uma superstição
móvel: se uma não dá certo, troca-se
por outrae vai-se em frente até a próxima
vitória ou a próxima derrota. Na época
das vitórias, as camisas que deram certo andam quase
sozinhas pelo rigoroso excesso de uso e pela inprescindível
não lavagem. Na derrota a camisa engomada pelo suor
vai para o lixo com a maior facilidade.
SE perguntar a qualquer um de nos
se quer ser diferente, a resposta é não.Uns
dizem que é muito chato não sofrer. E argumentam:
"E como ver um filme pela segunda vez." Se perguntar
a qualquer um de nós por que superstições
móveis e transitórias, a resposta vem pronta"É
bom, é mágico." Imaginem como é
bom pensar que o esforço do adversário é
inútil frente à camisa não lavada ou
a um amuleto apertado na mão.A Torcida do Botafogo,
neste sentido, é a única que participa jogando
com o time e não apenas torcendo. O adversário
chutou por cima da trave não porque a marcação
era boa, ou porque tenha errado, mas porque o amuleto mágico
entrou em campo e descolou levemente o bico da chuteira.
É este mundo mágico
de vitórias gloriosas e sofridas que nos dá
prazer. O Botafogo não é o melhor ou pior.
É diferente. Como ? Quem foi o responsável
pelo Campeonato Brasileiro de 95 ? A resposta é fácil:
uma concentração de amuletos e manias embargadas
no avião do presidente da FIFA que vinha para o Brasil.
O doutor Havelange trazia dois jogadores brasileiros que
estavam na Suiça: Luiz Henrique e Túlio. De
longe, o melhor currículo era do jogador da seleção
brasileira, o Luiz Henrique. Era lógico para todos,
menos para nós. O Túlio teve seu percurso
desviado e acabou artilheiro absoluto. Mas há uma
superstição que vive no Botafogo desde sempre:
só seriamos campeões se tivéssemos
um ex-jogador do Flamengo. Terminado o jogo com o Santos,
fim do nosso sofrimento e início da nossa glória
, encontrei um grupo que urrava: "Obrigado, Flamengo,
mais uma vez." Curioso perguntei por quê ? A
resposta não tardou: "Mais importante que ser
campeão é a escrita funcionar ." Fomos
campeões com Gotardo, como tínhamos sido em
57 com o Servilio, ou em 61/62 com o Jadir e em 67/68 com
o Paulo Cesar e o Gerson. Aos berros o grupo concluiu: "Graças
a Deus, graças a Deus, a escrita funcionou."
Cesar Maia
Publicado no jornal "OGLOBO"
de 28/12/1995
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