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ENTREVISTA DO
MANGA, EX-GOLEIRO DO BOTAFOGO.
Entrevista publicada
no Jornal O GLOBO do dia 16/03/2008.
"O bicho
era certo, sim."
Ex-goleiro do
Botafogo lembra os tempos em que o Flamengo era freguês.
Rogério
Daflon
Aos 70 anos, o ex-goleiro Manga parece
feliz. Casado com Cecília, vive em Miami, onde
trabalha à frente de uma empresa que instala
piso de madeira. Antes, ensinava futebol em escolinhas
da cidade, sobretudo para a colônia hispânica.
Hoje o acento espanhol sobressai em sua fala. Sua carreira
foi um sucesso: quatro vezes campeão carioca
pelo Botafogo (1961, 1962, 1967 e 1968), camprão
mundial interclubes pelo Nacional, do Uruguai (1971)
e bicampeão brasileiro com o Internacional, de
Porto Alegre (1975 e1976). Mas sua emoção
é mais forte quando fala dos anos de General
Severiano. Manga simboliza uma época de plena
hegemonia alvinegra sobre o Flamengo.
O GLOBO: Era um prazer
especial derrotar o Flamengo?
MANGA: Era uma grande
alegria. O Flamengo já tinha a maior torcida,
e a lotação no Maracanã era de
150 mil pessoas, os ingressos sempre terminavam rapidamente.
A torcida do Botafogo ficava em menor número.
Apesar disso, ganhávamos a maioria dos jogos.
O time do Flamengo, com Dida, Henrique, Jordan, era
muito badalado, mas o Botafogo... Imagina um time com
Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, Amarildo, Quarentinha,
Didi, Jadir, Paulistinha. O Botafogo tem de voltar a
investir. Os dirigentes têm de contratar grandes
jogadores. Sei que o time tem um goleiro uruguaio (Castillo),
que me elogiou. Pelo menos, ele sabe da grandeza do
clube.
O GLOBO: O Senhor
dizia que, quando jogava contra o Flamengo, era semana
de fazer a feira porque o bicho estava garantido...
MANGA: Dizia. O bicho
era certo, sim. Com aquele time era fácil dizer
isso. Mas com o maior respeito, não queria ofender
ninguém... Naquela época, a torcida que
saia frustada do Maracanã era a do Flamengo.
Foi asiim nos Campeonatos Cariocas de 1961 e 1962.
O GLOBO: O senhor
acabou fazendo parte de dois grandes momentos do Botafogo,
pois foi campeão também em 1967 e 1968
(nesse ano, em que deixou o clube, participou de nove
dos 18 jogos do Carioca).
MANGA: Se em 61 e
62 a equipe tinha craques como Garrincha e Didi, entre
outros; em 67 e 68, havia Jairzinho, Gérson,
Roberto, um verdadeiro timaço. Naquele tempo,
eu não falava mais que o bicho estava garantido
contra o Flamengo, mas assim mesmo o Botafogo vencia
quase sempre o time rubro-negro.
O GLOBO: E quanto
ao episódio em que João Saldanha atirou
no senhor, acusando-o de fazer corpo mole na final contra
o Bangu, em 1967, no Campeonato Carioca?
MANGA: Fiquei muito
chateado, porque sempre atuei em campo com a maior seriedade,
e o Botafogo venceu aquela decisão por 2 a 1.
Quando vi o Saldanha armado no Mourisco, atirando em
mim, resolvi correr. Daquela forma, não havia
como enfrentá-lo. Um mês depois, fizemos
as pazes e ficou tudo bem.
O GLOBO: O senhor
acompanha as notícias sobre o Campeonato Carioca
?
MANGA: Não
muito, mas sei que é diferente. Na década
de 60, os grandes jogadores não iam para o exterior.
Era como se o Kaká estivesse jogando no Brasil.
No carioca, times como Bangu, Olaria e São Cristovão
davam muito mais trabalho do que hoje em dia, ainda
mais quando jogavam em seus estádios. Agora,
soube que os times pequenos só jogam nos campos
dos times grandes.
O GLOBO: O senhor
brilhou em outros times. Tem uma recordação
marcante?
MANGA: Fui campeão
mundial interclubes pelo Nacional, do Uruguai (1971),
mas um time que me marcou também foi o Internacional
de Porto Alegre. Joguei com excepcionais jogadores,
como Figueiroa, Falcão, Batista, e fui bicampeão
brasileiro (1975 e 1976). Em 75, na final contra o Cruzeiro,
tive atuação importante contendo os tiros
do Nelinho.
O GLOBO: Mas torce
pelo Botafogo ?
MANGA: Em 1959, o
João Saldanha foi ao REcife, onde eu jogava pelo
Sport, e me levou para o Botafogo, quando eu tinha 21
anos. Lájoguei dez anos, participando de conquistas
históricas. Serei Botafogo até morrer.
Fonte: Jornal O GLOBO DE 16/03/2008.
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