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No auge da crise política que abalou o Botafogo como
reflexo da campanha ruim dentro de campo, Maurício Assumpção
ouviu de cardeais do clube o menosprezo por ter sua origem no futebol
de praia e supostamente ter pouco conhecimento do esporte profissional.
Ligado às suas raízes, ele procurou o pessoal das
areias de Copacabana para sua celebração particular
do título do Campeonato Carioca, conquistado no último
domingo com a vitória por 2 a 1 sobre o Flamengo. Após
um ano e três meses como presidente do Alvinegro, ele garante
ter conhecimento suficiente para fazer política e saber o
que é bom para que um time alcance um sucesso além
do nível regional. Por isso, quer ver Joel Santana em General
Severiano por muito mais tempo.
Em entrevista exclusiva ao GLOBOESPORTE.COM ao lado
de seu pai, Maurício, e de seus companheiros da região
da Rua Xavier da Silveira, num restaurante de Copacabana na noite
do último domingo, Maurício Assumpção
reconheceu que ainda há muito a fazer para que o Botafogo
não repita a péssima campanha do último Campeonato
Brasileiro, quando lutou contra o rebaixamento até a última
rodada. Além da permanência de Joel Santana para além
de dezembro, quando termina o contrato, o presidente admitiu que
segue sonhando com um reforço de expressão para fazer
o Alvinegro deixar de ser o campeão regional para brilhar
em toda a América.
GLOBOESPORTE.COM: Depois da comemoração
com torcedores, jogadores e outros dirigentes, você quis brindar
com os seus amigos dos tempos de praia. Por quê?
Maurício Assumpção: Se hoje
sou presidente do Botafogo, devo ao pessoal da praia. Quando assumi,
não quis outra gente para me ajudar a realizar o sonho de
reerguer as divisões de base. São pessoas fiéis,
que amam o clube e têm o único objetivo de serem campeões.
Após comemorar com minha família, jogadores, comissão
técnica e funcionários, fechei o dia com meus verdadeiros
amigos. São pessoas que torcem por mim e a quem devo muito.
O fato de ter o futebol de praia como origem foi
visto com desconfiança desde a sua candidatura a presidente.
Por isso, o título estadual é uma resposta?
Não. É difícil que eu guarde
alguma mágoa, mas é claro que as ofensas pessoais
doem muito. É duro ouvir alguém dizer que você
não é nada, e que quem vem da praia não pode
ser presidente. Mas não fico remoendo isso. Nesta segunda-feira
vou voltar ao clube e trabalhar, pois ainda há muito a ser
feito. Muitos projetos estão pelo caminho. Por exemplo, não
vou sossegar enquanto não construir o CT das categorias de
base. É algo para o futuro do Botafogo.
E após o apito final, o senhor chegou a pensar
nas duras críticas do ex-presidente Carlos Augusto Montenegro,
feitas após a derrota por 6 a 0 para o Vasco, ainda pela
Taça Guanabara?
Em meio à comemoração, encontrei
o Montenegro no Baixo Gávea e trocamos um abraço afetuoso.
Disse a ele que jamais conseguiríamos brigar, pois nossa
diferença está no campo das ideias, nunca do pessoal.
Quando a partida acabou, agradeci ao André Silva, porque
sei tudo o que ele passou. Também pensei que a torcida merece,
pois foi tachada de não encher estádios, de não
fazer a diferença e de um time que não vence na hora
H. Domingo, nada disso aconteceu. Os botafoguenses precisam entender
que podem nos ajudar muito.
O título do Campeonato Carioca também
significará maior responsabilidade? Existe o risco de acomodação
no Brasileiro por conta da conquista do último domingo?
Os três anos batendo na trave foram muito
ruins para o crescimento dos projetos do Botafogo. O título
é bom porque traz tranquilidade, mas ao mesmo tempo a responsabilidade
de fazer igual ou melhor no Brasileiro. Conhecendo esse grupo, sei
que não haverá acomodação. Sabemos das
nossas limitações. A diferença é que
o Joel não deu aos adversários a chance de enxergar
nossas fraquezas, apenas as virtudes. O departamento de futebol
sabe que é preciso melhorar o time e vem trabalhando para
isso.
Onde acredita que o Botafogo estará no fim
de 2010?
Com as contratações que queremos,
o Botafogo vai lutar por uma vaga na Libertadores. É isso
o que a torcida merece, e é isso que nós precisamos
pensar. O Brasileiro é uma competição na qual
há a necessidade de elenco. Não dá para ser
meia-boca. Todo o grupo precisa estar no mesmo nível.
Por falar em contratações, como anda
o projeto para trazer um jogador capaz de mobilizar a torcida e
chegar com status de ídolo?
O ídolo se traz ou se faz. Estamos fazendo
o Caio, que vem amadurecendo e é revelação
nossa. Hoje, muitos jogadores do elenco estão nas graças
da torcida, mas o ídolo é necessário para rejuvenescer
os torcedores, atrair ações de marketing e vender
produtos. Quando fui atrás do Ronaldinho Gaúcho, o
pensamento era esse, e ele continua a existir. Quanto a nomes, posso
dizer que as negociações estão muito interessantes.
O Botafogo tem apresentado propostas de parceria, valorizando o
que pode agregar à imagem desses atletas. Não seria
necessariamente um jogador brasileiro.
Joel Santana tem contrato até o fim do ano,
mas haverá uma renegociação de valores antes
do início do Campeonato Brasileiro. É justo que o
treinador tenha o salário aumentado depois do título?
O contrato do Joel estabelece uma revisão
de valores agora, e o reajuste é merecido, sim. Ele chegou
ao Botafogo numa determinada situação e hoje ela é
completamente diferente. Isso será resolvido até o
início do Brasileiro. Nunca vi uma união tão
perfeita entre um técnico que precisava de espaço
e um clube que precisava de um grande treinador. Mas hoje ele conta
com um ambiente de trabalho extremamente saudável, que lhe
dá poucas preocupações, além de uma
estrutura invejável. Dinheiro é importante, mas tenho
certeza de que o Joel também leva em consideração
todos esses outros fatores.
Existe alguma chance de, nessa negociação,
haver um acordo para a extensão do contrato?
Se ele é achar que é interessante
e que esse é o projeto da vida dele, por que não?
As duas partes se identificaram de uma forma muito bonita. Depende
muito do que o Joel perceba como seu horizonte. Ao fim da decisão,
agradeci muito ao Joel e disse: “Espero que você continue.”
Aliás, não gosto de mudar de treinador. Em relação
ao Ney Franco e ao Estevam Soares, houve a necessidade naqueles
momentos, mas em ambos os casos, lamentamos muito.
Este domingo foi o dia mais feliz da sua vida?
O ser humano é um eterno insatisfeito. Se
eu estivesse ao lado da mulher que mais amo, seria o melhor momento
da minha vida.
Fonte: Globoesportescom |